A Construção do Corpo

Publicado  terça-feira, 29 de outubro de 2019


Pode-se considerar o corpo humano como resultante da interseção entre a biologia e a cultura. Todas as sociedades  têm  seus  padrões  sobre  o  que  é  belo  e  o  que  é  feio,  atraente  ou  não,  símbolo  de  status  ou estigmatização.  Na  sociedade  ocidental  contemporânea  isso  tem  chegado  a  um  ponto  de  gerar  uma  certa obsessão em busca do corpo "perfeito" ou forma de expressão.
As  pessoas  estão  cada  vez  mais  buscando  produtos  ou  fórmulas  milagrosas  para  ficarem  "bonitas", magras, "saradas". O padrão que é exibido na mídia, através de artistas, modelos, é desejado por muitos. E ás vezes essa busca leva as pessoas a um caminho contrário ao da saúde, como o da anorexia, bulimia ou vigorexia além  é  claro  da  banalização  com  as cirurgias  plásticas.  E  essa  naturalidade  com  que  é  vista  a  mudança  da aparência pode levar a uma desconstrução da aparência ou até a deformidades. Quanto as cirurgias de redução de estomago será realmente que todos necessitam ou é pelo simples fato de se alcançar um corpo magro e esbelto? As academias estão cada vez mais lotadas e pessoas desesperadas pelo corpo perfeito e rápido acabam se submetendo ao uso de anabolizantes o que muitas vezes levam a morte ou a serias complicações na saúde e vida das pessoas.
O corpo também é usado como forma de expressão. A tatuagem, que antes era marginalizada, virou obra artística, adereço cultural. Também é comum o uso de piercings ou de modificações físicas e de vestuário para traduzir  as  características  de  determinada  tribo  urbana.  Em  outras  culturas  também  usa-se  o  corpo  para traduzir algo. Em alguns casos o fato de não mudar o corpo é que é o diferente. Por exemplo, as mulheres Mursi (Tribo da Etiópia) são famosas por usar alargadores no lábio inferior. Lá isso é sinal de beleza. Na Tailândia há a  tribo  Paduang,  onde  mulheres  usam  argolas  no  pescoço  e  são  conhecidas  como  "mulheres  girafa".  E  se procurarmos vamos achar mais exemplos pelo mundo afora.
O fato é que o corpo é, e talvez sempre será uma grande forma de nos expressarmos e relacionarmos.
Para Martha Graham “o corpo humano é um traje sagrado. É o primeiro e o último traje de uma pessoa: é nele que se entra na vida e é com ele que se parte dela; deve ser tratado com honra, e com alegria e medo também. Mas sempre com graça." Jaeger (1997) por outras linhas nos diz que “é possível através do corpo, compreender a sociedade,suas normas  e  seus  valores,  onde  a  linguagem  corporal  torna  possível  a  identificação  do  grupo  social  a  que pertencem  os  indivíduos  e  seus  pensamentos,  sentimentos  e  ações  que  denunciam  os  valores  por
estes considerados” (p. 71).
Podemos perceber que a relação do homem com o corpo ultrapassa a esfera biológica e que todo homem é portador de características culturais especificas em seu corpo, manifestadas através de seus sentimentos, gestos, técnicas e etiquetas que são e estão sendo recortadas e moldadas inconscientemente.  Representações e imaginários apreendidos em uma dimensão que engloba tais manifestações afetivas e de laço social que os atores estabelecem entre si através do tempo.
Quando se participa de um determinado grupo, não são as semelhanças biológicas que identificam seu pertencimento, mas os  significados  culturais  e  sociais  atribuídos  às  suas  representações.  É  a  diferença  que possibilita a identificação, demarcando uma fronteira, que se constituí sempre numa relação, sendo provisória, parcial, temporária.
De acordo com Guacira Louro, “os corpos, estão longe de ser uma evidência segura das identidades! Não apenas porque eles se transformam pelas inúmeras alterações que os sujeitos e as sociedades experimentam, mas também porque as intervenções que neles fazemos são, hoje, provavelmente mais amplas e radicais do que em outras épocas. ”
Mídia e o culto à beleza do corpo
Há  nas  sociedades  contemporâneas  uma  intensificação  do  culto  ao  corpo,  onde  os  indivíduos
experimentam uma crescente preocupação com a imagem e a estética.
Entendida como consumo cultural, a prática do culto ao corpo coloca-se hoje como preocupação geral, que perpassa todas as classes sociais e faixas etárias, apoiada num discurso que ora lança mão da questão estética, ora da preocupação com a saúde.
Nas  sociedades  modernas  há  uma  crescente  preocupação  com  o  corpo,  com  a  dieta  alimentar  e  o consumo  excessivo  de  cosméticos,  impulsionados  basicamente  pelo  processo  de  massificação  das  mídias  a partir dos anos 1980, onde o corpo ganha mais espaço, principalmente nos meios midiáticos. Não por acaso que foi nesse período que surgiram as duas maiores revistas brasileiras voltados para o tema:  “Boa Forma” (1984) e “Corpo a Corpo” (1987).  Contudo, foi o cinema de Hollywood que ajudou a criar novos padrões de aparência e beleza.
Da  mesma  forma,  podemos  pensar  em  relação  à  televisão,  que  veicula  imagens  de  corpos  perfeitos através dos mais variados formatos de programas, peças publicitárias, novelas, filmes etc. Isso nos leva a pensar que a imagem da “eterna” juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, atravessa todas as faixas etárias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos  estilos de vida. Nesse sentido, as fábricas de imagens como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso.
Os programas de televisão, revistas e jornais têm dedicado espaços em suas programações cada vez
maiores para apresentar novidades em setores de cosméticos, de alimentação e vestuário.
O consumismo desenfreado gerado pela mídia em geral foca principalmente adolescentes como alvos principais  para  as  vendas,  desenvolvendo  modelos  de  roupas  estereotipados,  a  indústria  de  cosméticos lançando a cada dia novos cremes e géis redutores para eliminar as “formas indesejáveis” do corpo e a indústria farmacêutica faturando alto com medicamentos que inibem o apetite.
Diante disso observamos que   atualmente, um ideal de corpo e de beleza  é cada vez mais veiculado
massivamente  pelo  aparato  publicitário  da  mídia.  O  corpo  tornou-se  assim,  alvo  privilegiado  da  mídia  e  o principal “cartão de visita” na cultura contemporânea.
Evidentemente  que  a  existência  de  cuidados  com  o  corpo  não  é  exclusividade  das  sociedades
contemporâneas e que devemos ter uma especial atenção para uma boa saúde. No entanto, os cuidados com o corpo não devem ser de forma tão intensa e ditatorial como se tem apresentado nas últimas décadas. Devemos sempre respeitar os limites do nosso corpo e a nós a mesmos.